PHFIC - Capítulo V – O Casamento


O interessante desfile de mulheres bonitas e homens alinhados em direção à capela do castelo, dava o tom da cerimônia. As famílias Surotsev e La Fonte caminhava lentamente em direção à porta de entrada e, calmamente, galgavam os degraus. Toda a beleza do interior do prédio impressionava ainda mais, pela decoração proporcionada para o evento. Após sentaram em seus lugares previamente reservados, não demoraram muito para se deterem para o momento da entrada da noiva na igreja. Linda, em um vestido longo de veludo preto, Sarah Andreevna era conduzida ao altar pelo seu irmão, Gil de Basemon. Ambos escondiam o horror que aquele ato lhes causava, porém a missão começada ali: tinham objetivos maiores para que seus mal-estar os dominarem. O Barão, visívelmente emocionado, recebeu Sarah pela mão e a conduziu para oficializar a cerimônia junto do Bispo Jacques Noir, responsável pelos casamentos de nobres da região. Sarah e Gil estavam com uma sudorese intensa, mesmo sintoma que acometia Zatorsky e a Condessa Chant d’Orsay. Aqueles minutos pareciam horas e a cerimônia se arrastava, até que se fez chegar, pelo auxiliar do bispo, pequenas pílulas discretas de cor rubi até os quatro integrantes, que, sem despertar curiosidades foram ingeridas.

Nitidamente reestabelecidos, a cerimônia voltou a seu curso, com o bispo fazendo suas considerações finais e encantando a platéia com suas palavras a respeito do compromisso assumidos pelo casal. A desocupação, ao final do ato, foi feita sem tumulto, e agora os barões os recepcionariam com uma bonita festa no interior do palácio.

Três pessoas ficaram para trás e conversavam:

- Pensei que não ia acabar nunca mais. -Zatorsky conversava com a Condessa Chant d’Orsay e Gil de Basemon: na realidade Juliana Marotti e Mestre Leonardo.

- Calma, meu caro, este sacrifício nos será bem recompensado, agora teremos uma base legal para agirmos, e Sarah será muito útil para nos tornarmos íntimos desta “podre” nobreza da região. O riso irônico de Mestre Leonardo mostrava a clareza dos planos já idealizados.

- Só espero que este não seja um fraco como aquele tolo com quem tive que casar, mas deixa, que ainda terei minha vingança. Os olhos de Juliana Marotti saiam chispas de ódio.

O pequeno grupo se dirigiu célere em direção ao castelo e ingressou no grande salão onde a festa se desenrolava. Casais rodopiavam pelo salão embalados pelas valsas vienenses, enquanto duas moças sonhadoras e sozinhas em uma mesa, apenas admiravam as danças: Fabiana e Carol estavam com seus pensamentos distantes, quando uma voz masculina parou diante de Fabiana e lhe disse:

- A senhorita me permite que esta dançar?

Ela olhou para o cavaleiro e viu a presença imponente de Geraldo Zatorsky convidando-a, ao contìnuo, levantou-se e dirigiu-se à pista de dança.

Carol ficou pensativa e olhando para Fabiana, mas um cavaleiro elegantemente vestido fez a mesura e lhe convidou:

- A Senhorita me permite convidá-la para esta dança?

Era Cleverson Morgan, sobrinho do Barão e companheiro de armas de Geraldo Zatorsky em Paris: alto, cabelos castanhos e ar alegre, pôs-se a dançar com Carol como se a conhece há muito tempo.

Fim de festa e as famílias foram se retirando em direção às suas residências: Fabiana e Carol com a cabeças nas nuvens, e os demais integrantes das duas famílias alegres, enfim, depois de muito tempo.

Sarah revelou-se uma grande anfitriã; bailes e festas freqüentes animavam o sóbrio castelo de Montgnac. O barão, que até o casamento mantivera-se meio arredio à vida social, aderiu de vez ao estilo alegre e descontraído da esposa.

Enquanto isto em Komedhor, os acontecimentos eram menos sóbrios. Juliana Marotti, irritada com os acontecimentos envolvidos enquanto sua estada em São Petrogrado, vociferava:

- Seu inútil, seu imprestável, quero que você apodreça neste calabouço, que você perca as esperanças de um dia sair daqui com vida! Desferiu uma violenta bofetada no prisioneiro que algemado não pode reagir e nem se defender.

Juliana Marotti subiu os degraus que separavam o calabouço de um compartimento reservado onde se encontrava Mestre Leonardo.

- Pronto, já despejou sua fúria ? O olhar de escárnio parecia desafiador, mas Juliana Marotti achou por melhor ignorar a ironia.

Juliana Marotti começou a folhear nervosamente um livro antigo com as páginas amareladas e procurava alguma coisa. Mestre Leonardo apenas a observava com um canto do olho, enquanto manipulava um pequeno recipiente com um liquido vermelho que fervia em um pequeno fogareiro. Zatorsky ingressou no recinto com um pequeno saquinho de pano, trazendo–o para perto do homem.

Após apagar o fogo e retirar o recipiente do fogareiro, ele pegou uma tigela de barro e colocou todo o conteúdo fervente nele, abriu o saquinho e com movimentos ritmados ele colocou pequenas quantidades sobre as borbulhas; o ar ficava nauseabundo quando da queima do conteúdo do saquinho.

Nenhum dos três se retirou, ao contrário, seus corpos pareciam entrar em transe, e ao final do ritual, uma imagem começou a surgir por meio da fumaça.

O Castelo de Montgnac aparecia com se estivesse bem próximo e ao alcance das mãos, Mestre Leonardo, como se estivesse abrindo uma porta, fez um gesto significativo para que os outros o acompanhassem. Adentrando na coluna de fumaça, os personagens se encontraram em uma sala oculta dentro do Castelo de Montgnac. Lá, Sarah os esperava com uma vestimenta ritual, e com olhares rápidos os conduziu para um aposento especial, onde puderam se concentrar na conclusão do rito.

Em Gorki, Carol e Fabiana apenas ficavam suspirando pelos inúmeros bailes e também por encontrarem os seus pares nas danças. Cleverson e Zatorsky ficavam como imagens fixas nas cabecinhas das moças. As Familias Surotsev e La Fonte, animadas também com os novos ventos que sopravam sobre Nice ,decidiram não ficar pensando nas imagens sombrias e nas previsões que a condessa Cristina fazia sobre o perigo que rondavam as famílias. Que perigos? Montgnac era uma fortaleza medieval absolutamente segura e tinha um excelente e eficiente corpo de lanceiros que a protegia. A condessa não especificava o perigo, mas sentia que uma mão negra a asfixiava quando tinha estas visões e somente conseguia restituir o controle quando apertava o crucifixo com suas mãos.

Padre Timon andava muito desconfortável ultimamente com a presença constante do bispo Jacques Noir, que além de oficiar o casamento do Barão, começava a visitar todos os castelos de nobres e verificar os seus usos e costumes, bem como acompanhar a arrecadação de donativos e também a realização de obras naquela pequena jóia da Provença. Ele, que sempre ignorava a região e a cidade, começava a se tornava incômodo no desempenho de suas atividades corriqueiras.

De volta a Komedhor pelo portal, Mestre Leonardo abandona Juliana Marotti e Zatorsky sozinhos. Embriagados pelo ritual e também muito excitados pela experiência, o casal deixou-se entregar pelo desejo mútuo e, em clima de muita paixãoe entregam-se aos prazeres do sexo. Ao contrário das outras vezes, a relação sexual foi feita com muito carinho e as juras e palavras de amor lembravam dias idos. Os amantes voltam a se vestir, servem um cálice de vinho, conversam animadamente e com gesto brusco a porta se abriu, uma figura apareceu e lhe disse:

- O mestre lhes aguarda no salão rubro. Era Adriano, empregado do Castelo de Komedhor.

Juliana Marotti e Zatorsky se dirigem rapidamente e chegando lá olham para Mestre Leonardo, ele começa a falar:

- Pratissuria necessita de um sacrifício, e como eu lhe poupei, Zatorski, preciso fazer o ritual antigo , então vamos fazer com que a Sarah realize mais festas, para que possamos escolher.

Juliana Marotti e Zatorsky dirigem para um quarto, onde junto a este havia um gabinete não muito grande, cuja entrada fora artificialmente escondida no revestimento de madeira da parede. De lá, por uma escada em caracol, eles subiram para o andar superior e foram dar em um gabinete totalmente idêntico ao do andar de baixo, escuro e sem janelas como o primeiro. À luz do archote carregado por Juliana Marotti , Zatorsky divisou no fundo do recinto uma grande porta de ferro, cheia de sinais cabalísticos em vermelho e preto.

No centro de duas almofadas da porta havia um medalhão em forma de estrela pentagonal, onde eram representados desenhos simbólicos.

Examinaram alguns nomes e também os dias das festas chegando a um consenso sobre a conveniência, e a data correta: ali estava sendo decretada a morte de uma pessoa.

Sarah, convenientemente, aceitava seu papel de esposa e dona do castelo, não despertando suspeitas e também utilizando de tratamento cordato e respeitoso com seus convidados em suas festas. As suas atividades de magia eram sempre realizadas na madrugada e sempre em um compartimento secreto, que descoberto por ela, em suas andanças pelo castelo, dava para uma ampla sala cheia de objetos litúrgicos, armaduras, brasões e que também dava acesso para a cripta da família Montgnac, onde estavam sepultados todos os seus ancestrais. Ela descobriu que em uma parte da cripta o acesso era vedado e algumas expressões na sua entrada talvez justificassem a porta de ferro e os cadeados encontrados. Já os havia lido em algum outro lugar e era só questão de tempo para descobrir onde. Neste local também recebia Mestre Leonardo em seus cultos satânicos.

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