PHFIC - Capítulo XI – A Beira do Carvalho

Cristina com auxilio de Vairami e Fabiana acomoda Carol em um colchão de folhas de carvalho, ela demonstra estar muito fraca, a intensidade da poção ministrada por Sarah havia minado muito de suas energias. Cristina volta junto de seus acompanhantes relatando seu procedimento. Neste momento nota o barulho do galope de dois cavalos. Nota pelo sorriso de seu acompanhante que tratam-se de seus dois amigos.

- Muito bem minha querida, fez o correto. Deixa eu lhe apresentar uma pessoa muito querida que você ainda não conhece. Este é Arthur, meu filho.

- Seu filho? Tio Ivan nunca pensei que o senhor tivesse filhos, nem que tivesse casado.
- Minha Querida, foi necessário esconder tudo e de todos, minha esposa Ligia tinha uma saúde muito frágil quando a conheci e infelizmente foi por isto que ela morreu quando meu pequeno Arthur nasceu. Fiquei totalmente desorientado e pedi para meu amigo Timon arranjasse um casal para o criar, nestes anos todos não sabia que Arthur seria tão importante para resolver esta situação; Foi somente depois de descobrir a minha antiga reencarnação como Roberto, o príncipe do mal e das sombras, filho do Barão Nicolau, que hoje responde por Mestre Leonardo e reconhecer sua pérfida amante Vanessa, que hoje atende por Sarah.
- Ah! As histórias de Komedhor são verdadeiras!!! E eu queria tanto que fossem apenas lendas.! Cristina senta-se em uma grande raiz e coloca as mãos na cabeça.
- Infelizmente não são, mas depois tive uma boa novidade, envolvido em minhas loucuras e magias com as sombras, recebi uma noite durante meu sono a visita de uma entidade luminosa, ela se identificou como Artur, estudante do centro de ensino druidico Ynis Mon e tinha como missão salvar a minha alma e a linhagem dos Tuzov, já bastante comprometidas como o mal e as sombras. Tinha retornado ao corpo de carne como meu filho, mas com a morte da esposa ele havia sido entregue aos cuidados do Padre Timon para adoção de um novo lar, seus novos pais jamais desconfiaram de sua missão e de seu poder. Aos dezoito anos quando os seus pais adotivos faleceram ele resolveu acompanhar o Padre Timon como diácono, mas não se afastava da igreja e não se expunha, sabia bem dos movimentos de Mestre Leonardo e de Sarah. Sabia que ainda não era hora de fazer alguma coisa, conseguiu convencer-me. E após um longo treinamento, sugeriu que eu, Ivan, morresse para a vida civil para ter mais condições de preparar o caminho para neutralizar as sombras.

Tudo foi calculado e com a prática adquirida simulei minha própria morte e a partir daquele momento fui me preparando para que cada vez mais tivesse condições plenas de vencer e libertar os Tuzov da maldição que eu mesmo tinha lançado em Komedhor. Ivan Tuzov teve que morrer para que Roberto perdesse sua força e seu poder, aliás fui eu que fiz o medalhão, antes tinha um objetivo, mas com o cristal que Arthur fundiu nele tem um poder muito maior. Agora o Arthur vai te explicar porque tu é a única que pode empunhar este medalhão, pois somente as druidesas o podem.

Para demonstrar, Arthur faz uma pequena evocação:

“Elemento de fogo, espírito de luz, essência de vida, acordem a noite. Fogo da alma, chama de vida, enquanto a luz revela a verdade, queimem no brilhante dourado da eternidade” Uma única vela queimava, a chama tornava-se mais forte a cada palavra proferida. Arthur inclinou-se sobre a vela, a luz dourada banhando-lhe as feições pálidas, contraídas, as sobrancelhas levemente arqueadas, de olhos fechados, ele repetia a antiga invocação. A brilhante luz azul mesclava-se ao ouro reluzente em mutantes padrões espiralados, conforme a chama refletia o grande cristal que ele segurava suspenso diante da vela, criando uma tapeçaria faiscante que cintilava Então, de súbito, como se obedecesse a seu comando, a luz engoliu a si mesma, os desenhos se concentraram num único ponto reluzente até que tudo que restava era a chama que agora queimava dentro do cristal.
O Medalhão tem o poder de queimar qualquer ectoplasmia feita pelas sombras, tens o poder agora de colocar um fim em todas estas ações das trevas, buscando sempre o equilíbrio, terás condição agora de encerrar a história começada há muito tempo atrás por feiticeiros que aproveitaram dos conhecimentos antigos para tomar a força este vale.Seja forte Cristina e terás a tua grande vitória.
Cristina se deslocou para ver como estava Carol, viu Fabiana a cuidando e demorou para acreditar que, após sua saída de Gorky tenha passado por tantas experiências, sentou-se a beira de uma raiz e começou a pensar sobre toda a sua vida até aquele momento: sua infância alegre em Bordelle, seu casamento com Eric, o nascimento de suas filhas, sua vida feliz e descompromissada até que estranhos fatos começaram a ocorrer, a morte de seus pais, do seu tio Ivan e de seus sogros. Quase ficou sem ar quando reencontrou seu tio Ivan vivo na cripta de Gorky, mas após todas as explicações e narrativas de fatos estranhos que desconhecia, como seus pais foram envolvidos pelas trevas, o triste fim de seu ancestral Nikolai Pavel Tuzov e seu corpo sepultado em lugar ermo de Molay, a redenção de Ivan pela descoberta de Arthur e como ele descobriu a luz e principalmente a revelação de que Cristina era uma druidesa antiga e poderosa, digna de usar o medalhão dos Tuzov.
Uma folha de carvalho caiu em seu colo, pegou-a em sua mão e começou a olha-la distraidamente, sabia que ali residia uma energia poderosa que foi redescoberta, o seu olhar agora vasculhava o firmamento, olha as constelações e identificava cada uma das estrelas, uma pessoa aproximou dela e perguntou:
- Posso sentar ao seu lado?
- Claro, sente aqui querida. Fabiana sentou e encostou sua cabecinha no ombro de Cristina, precisava daquele apoio desde que sua mãe tinha voltado para casa.
- Como te sentes?
- Preciso de um apoio, ainda não sei como resisti a todos os acontecimentos e sobrevivi.
- Se isto te ajudar, narre e desabafe para mim o que ocorreu depois de teu casamento.
Fabiana falou de todos os seus sonhos desde São Peterburgo até sua chegada em Bordelle, a corte de Zatorsky, a estranha ocorrência na fonte de Molay e depois os seus pesadelos antes do casamento. Enquanto isto Cristina fazia um carinho em seus cabelos. Narrou seu inferno vivendo em Montgnac, no dia em que invocou a Banshee temia muito pela sua vida e da Carol, por isto foram esconder-se na capela, único lugar que achava seguro. Acabaram adormecendo lá, no outro dia foi verificar o que havia acontecido e num momento de fúria apertou o pescoço do moribundo bispo, assustou-se com tudo e correu de novo em direção a capela, Carol ficou imobilizada com toda a cena e demorou para voltar para lá, fato que facilitou a sua captura pela Sarah, ela lembrou que o único lugar onde os satanistas não entravam era justamente a capela e ela ficava sempre junto ao altar onde existia um enorme crucifixo. Sentia se protegida lá, mas logo após ouvir os gritos de Carol, sentiu uma enorme vontade de fugir e começou a correr nos campos até achar o grande carvalho. Ali descobriu que era uma árvore sagrada e começou a manipular seus livros antigos, preparou uma pequena evocação e colocou seus elementos mágicos para se proteger se houvesse um ataque, mas saberia que não teria chances de resistir caso tentassem qualquer coisa. Com sua chegada e do Ivan abriu um sorriso de esperança e agora queria apenas descansar e recuperar-se de seu longo inverno existencial. Fabiana agora estava adormecida em uma pequena elevação no terreno junto a raiz que Cristina estava sentada. Ivan chega próximo de Cristina e lhe fala:
- A hora está próxima minha querida, deixe que nosso amigo Timon vele por nossas meninas, ele as cuidará muito bem. Cristina troca de lugar com Timon e segue com Ivan para junto de Arthur.
- Sinto que eles estão próximos, não demorarão, Mestre Leonardo age sempre perto da meia noite, não seria diferente agora, apenas não esqueçamos que nosso maior poder é a união, não atuaremos separados, o triangulo de luz é muito forte para nos proteger e não permitamos que nenhuma provocação nos desequilibre . Arthur apresentava um aspecto sério, mas sereno.
Ivan e Arthur começaram a fazer pequenas fogueiras para aquecer as pessoas e também para espantar possíveis predadores. Gostariam de ter uma boa condição visual e atenção para qualquer movimentação suspeita. Eles ficaram alguns tempo conversando, até que Arthur começou a montar um tripé e jogou algumas essências dentro de um pote de cobre, um suave aroma começou a exalar da mistura e com após o vapor fixou um sinal cabalístico na grama que estava em volta da árvore.
- Pronto, agora aguardemos, estaremos seguros para qualquer alteração no nível de energia do ar.
Continuaram a conversar e subitamente um sopro de vento gelado começou a fazer um barulho estanho.
- Chegou a hora, eles chegaram. Arthur, Ivan e Cristina levantaram-se e ficaram a postos.
Um barulho seco e forte anunciou a chegada de Mestre Leonardo e seus acompanhantes.
Alguns segundos que poderiam parecer horas mostraram frente a frente Ivan e Mestre Leonardo.
Antigos acontecimentos e sentimentos represados mostravam detalhes nos seus rostos, Ivan com seus olhos azuis e serenos e Mestre Leonardo com seus olhos negros e furiosos.
- Muito bem Roberto, mais uma vez te vejo no meu caminho, este desprazer tive que carregar comigo muito tempo, mas hoje vou encerrar este nosso contato, desta vez não irás me vencer e me encarcerar como fez na última vez. Tenho muito mais poder hoje e não me deixará mais sem ação. Mestre Leonardo trazia a destra pronta para fazer o sinal cabalístico de evocação.
- Caro Barão, Ivan estava sereno, sabes muito bem que me instruísse na baixa magia e que sempre fui mais competente em a utilizar, mas hoje graças ao meu mentor de luz, não a mais precisarei utilizar, porque sou instruído na alta magia e ela me diz no momento: desista barão, seu reino de terror não o levará a nada, somente sofrimento e morte a todos que o acompanham.
- Tu seria meu sucessor, minha continuação
- Até um dia eu acreditei, até que vi minha mãe morta, Ivan apenas olha para Mestre Leonardo e analisa suas reações.
- Foi um acidente, eu estava no laboratório quando sua mãe entrou sem avisar.
- E isto justifica um corte longitudinal na jugular ? Por ela ter entrado sem aviso no laboratório?
- É que naquele momento estava com um estilete e ele escapou da minha mão quando estava cortando um bloco de cera.
- Não seria muito mais fácil confessar que tu matou ela para satisfazer sua amante Vanessa, aqui presente.
- Não, ela não me pediu nada.
- Vanessa ou Sarah, nunca pediu nada ela ordenava, assim que tomou posse de nosso castelo ela me expulsou.
- Foi necessário, você era um risco para nós dois.
Sarah nitidamente inconformada com todas as acusações, evoca as larvas das trevas:
- Espiritos do Mal, antigas formas infernais, eu lhes ordeno: obedeçam ao meu comando. Nuvens difusas adensam e corpos de mulheres com rosto de cobra rastejam em direção aos pés de Sarah. Com autoridade e direcionando-as para Cristina:
- Ataquem, mate-na!
Os espectros com agilidade e velocidade seguem a ordem, Cristina evoca a Deusa Brigid:
"Bride, Dama Supeior,
Chama súbida;
Que o brilhante e luminoso sol,
Nos leve ao reino eterno."
Eu construo meu fogo hoje
na presença dos Deuses Sagrados do Céu.
na presença de Brigid da forma bonita
na presença de Lugh de todas as belezas
sem ódio, sem inveja, sem ciúmes,
sem medo ou horror de ninguém sob o sol
porque meu refugio é a Mãe Sagrada.
Ó Deuses, acendam o fogo de amor dentro do meu coração,
por meus inimigos, por meus parentes, por meus amigos
pelo sábio, o ignorante, e o escravo
da coisa mais humilde
até o nome mais alto.

Um globo de luz fica em torno das mãos de Cristina e começa a girar com impressionante velocidade, a cada volta uma flecha de luz sai de seu interior e atinge as formas espectrais que acabam se dissolvendo, um ar pestilento fica em seu lugar. Após dissolver todas um raio de grande intensidade atinge Sarah na altura do ombro e ela é jogada longe. Mestre Leonardo evoca:
Após um minuto de tumular silêncio, Mestre trovejou:

— Espíritos da natureza! Venham das profundezas da terra, da água, das alturas do éter e do fogo que a tudo atravessa! Servos do espaço, que movem as forças dos elementos, apareçam a nós!

O vento assobiava, a terra tremia e no ar ouviam-se estalidos. Parecia que uma multidão invisível se movia empurrando uns aos outros ao redor dos presentes,
A seguir, as densas nuvens numa névoa que, ao se dissipar, logo tornou visível o estranho exército que se apinhava junto ao círculo. Eram seres cinzentos de contornos indefinidos, envoltos em véus esvoaçantes. Agora os seus contornos já eram mais nítidos e podiam ser distinguidas as estranhas e horripilantes formas daqueles seres espectrais. Eles eram vermelhos como fogo e parecia serem fundidos de ferro em brasa; outros eram esverdeados como se feitos de espuma palustre estagnada.
Os seres cinzentos começaram a cercar Ivan, Cristina e Arthur, aquela turba começa a fazer um redemoinho para cegar os três, porém nenhum dele parecia ser importar com isto. Nenhum medo ou apreensão era demonstrado, Arthur serenamente invocou Lugh, o Deus do Sol:

Lugh o Vitorioso, Nós o invocamos e pedimos sua proteção.
Lugh do Cavalo Branco e das Lâminas Brilhantes.
Você da Forma Perfeita, Criança da Luz e das Sombras, vencedor de Balor, esteja conosco.

Que possamos sempre ser abençoados pela alegria do Brilhante Senhor dos Céus,
O Inteligente, a Mão Segura, o Bardo e o Ferreiro.
Que possamos estar em paz sob a mão do Comandante de Danú.

Pelo poder do Sagrado Três ouça o chamado de seu povo agora.
Pela Lança e pelo Corvo venha ao seu povo Lugh o Vitorioso, nós o invocamos, Oh Nossa
Luz e nosso Guia!

Possa a sua força estar acima de nós,
Possa a sua beleza nos deliciar,
Possa a sua habilidade estar conosco!
Venha através das trilhas dos bosques antigos ao anél de seu povo e esteja presente no coração de todos que o honram .

Lugh Lamfada, aquele que tudo pode alcançar!
Lugh Samildanach, aquele que tudo pode fazer!
Lugh Ioldanach, aquele que tudo pode trazer!
Esteja conosco e abençoe o nosso Rito!
Neste momento uma lança de luz surgiu na mão de Arthur, com agilidade surpreendente ele a dirige para Mestre Leonardo que é atingido no peito, cambaleante ele cai no solo, uma chama azul violácea brilha por alguns instantes e depois apaga e ele solta um suspiro e sua cabeça pende ao lado. Sarah que havia se recuperado da queda olha a cena e corre em direção ao corpo de Mestre Leonardo e com fúria tenta fazer uma evocação, Cristina a fulmina com flecha de fogo de Brigid e ela cai juntamente ao corpo do amante, enquanto os espectros ficam desorientados, Ivan utiliza a sua destra e com os dardos de luz elimina-os.

As nuvens começam a girar de maneira mais devagar e perdem também seu tom sanguineo, adquirindo então uma cor violácea, mais adequada a alvorada de um novo dia. Arthur derrama um liquido de cor dourada nos corpos ressequidos de Mestre Leonardo e Sarah, o liquido começou a fumegar e logo foram se miniaturizando até se tornarem um casal de corvos, logo após empreenderam seu vôo em direção aos galhos do grande carvalho, lá os dois ficaram unidos, até que finalmente voaram para bem longe.

Poderia tudo ser muito mais fácil, mas a senda das trevas é mais sedutora, bom agora atendamos ao nosso casal enfeitiçado, mas reestabelecer a sua verdadeira história.

Juliana Marotti e Zatorsky aturdidos olham para os dois caídos e para o trio de luz e imobilizados ficam esperando sua vez de serem mortos.

Ao contrário, Arthur os imobilizou com um cordão de luz e os colocou dentro de um triangulo e saudou Lugh:

Saúdo a Ti Lugh, o Iluminado,
Aquele que conduz os pastores,
Aquele que multiplica as colheitas,
Aquele que traz a riqueza e a prosperidade,
Aquele que abre aos homens todos os caminhos,
Aquele que zela pela saúde e desvenda o futuro.

É a ti que reverencio, Iluminador dos artistas,
Aquele que todos os dias percorre os céus com sua carruagem de fogo.
Aquele que é amado por todos os Deuses, Vós que sois o Dourado e resplandecente senhor dos Céus.
Tú que és um Rei em sua glória e que se ergue na luz de seu esplendor.
Que seu semblante brilhe entre nós e nos conduza em nossa jornada.
Você que fertiliza o grão, oh soberano entre todos os Deuses!
Todos exaltam sua bondade,
Pois seu é o dom de curar, de inspirar, de iluminar, de renovar, de profetizar.
Vós sois poderoso e sua força nos conduz, nos mostrando a satisfação da vida e a beleza que preenche todas as coisas sobre a Terra. Oh Deus dos tempos remotos, Faça-me forte, poderoso e vitorioso, Pois você não conhece a derrota, Pois seus caminhos são os caminhos da vitória. Me defenda com ponta de sua lança e com o fio de sua espada.
Neste momento uma espada de luz surge na mão de Arthur e ele a consagra e toca nas cabeças de Juliana Marotti e Zatorsky. Raios, Relampagos ecoaram no céu .
Dores atrozes e massas pestilentas negras começam a desdobrar-se dos seus corpos, seus lamentos, os gritos sinistros e ventos em redemoinho acabam por envolver-los, naquele momento, seus corpos giram e tomam curso ascendente, após alguns minutos seus corpos tombam pesadamente no solo, mas já não eram mais Zatorsky e Juliana Marotti, e sim o cavaleiro Fabricio e a Condessa Alessandra.
Amparando e ministrando uma poção a eles, Arthur os acomoda junta a Fabiana, Carol e Vairami. Padre Timon ficaria cuidando de todos até a volta de Arthur e Ivan a Komedhor.

Deslocando-se rápido até o castelo e olhando a construção cada vez mais próxima, Ivan começa a ficar apreensivo, afinal a última vez que lá estivera, seria para amaldiçoando toda a construção e seus habitantes, desde lá muitos fatos acabaram ocorrendo, tragédias, mortes.

Chegando na entrada principal, ambos descem dos cavalos, dirigem-se até um pequena declive perto de uma porta já enferrujada pela ação do tempo, gira uma pequena mola, um rangido cede a abertura da porta, já lá dentro, um intenso cheiro de mofo reina no ambiente lacrado há muito tempo. Ivan olha para um pequeno altar com uma caixa de cristal:

- Eis aqui o responsável por tudo vamos desmagnetiza-lo e depois poderemos destruir tudo. Com movimentos ritmados e pulsos magnéticos ambas começam a fazer o desligamento de todos os objetos e de suas energias, cada instrumento de perdição foi cuidadosamente neutralizado, após todos os procedimentos, a caixa de cristal foi retirada da sala, colocada em cima de um tripé, quando o pó pupura a envolveu ela começou a fumegar, uma grossa nuvem de fumaça se seguiu a sua explosão.

Como por mágica, o castelo de Komedhor começou a ruir e desmorronar, parte por parte até virar escombros. Estava feito, aquele lugar nunca mais seria utilizado.

Após passarem na cidade e conseguirem uma grande carreta, chegaram no grande carvalho e recolheram todos para finalmente encerrarem aquela história terrível. Agora deixem os mortos enterrarem seus mortos e os vivos poderem viver suas vidas.

Arthur dirige-se a Cristina:

— Vá e trabalhe, minha filha, não só para você, mas também para as suas companheiras de vida tão longa, que as teriam deixado desesperadas, se não fosse preenchida por estudos e coroadas por aquela clareza que lhes confere o conhecimento - oferecendo o cálice à jovem.
Esta umedeceu os lábios no vapor dourado e mergulhou em prece profunda. Instantes depois, de seu corpo começou a desprender-se uma luz esbranquiçada, que a envolveu feito auréola.

Então Arthur dirigiu-se a Vairami:
— Seu desejo está atendido. Você pode se entregar à meditação até que eu a chame.
Ele, então, deu-lhe também o cálice. Quando Vairami tomou dele, com ela repetiu-se o mesmo fenômeno que com Cristina, mas de forma mais intensa. A luz alva concentrou-se com tal força sob a fronte de Vairami, que parecia uma chama iluminando as feições da jovem aparentemente em estado de êxtase.

Subitamente, ela pareceu oscilar, levantou-se no ar e desapareceu numa densa nuvem que a envolveu e, arrastando-a para cima, desapareceu no ar.

— Vamos voltar para casa - disse Ivan .

Ao retornarem para casa, cada um se recolheu a seu quarto, Ivan deitou-se no sofá e apenas coçou a cabeça com a mão. Um verdadeiro sentimento tomava conta dele. Havia muito tempo que o seu estranho destino não mais o preocupava como naquele momento. Ele se sentia bem agora, assistido e feliz.

Lágrimas quentes jorraram por suas faces, mas, neste minuto, pareceu-lhe que uma mão afagou a sua testa e a bem familiar e querida voz sussurrou-lhe no ouvido:

— Pense no futuro em vez de pensar no passado! Você não está sozinho: nós não nos separamos, pois a minha alma o vê e o ouve. Trabalhe, vá em frente com coragem, meu amado, e logo lhe será concedida a mesma alegria. Você vai poder me ver e falar livremente comigo. A matéria rude já não nos separará.

A voz calou-se, mas Ivan sentia-se surpreendentemente acalmado e fortalecido. Respeitoso e conformado pôs-se de joelhos e numa oração ardente agradeceu ao Criador quando lhe deu apoio e forças para suportar dignamente o misterioso destino que lhe fora reservado.

Quando se levantou, já lhe havia retornado o autodomínio. Sentou-se ao lado da janela e começou a apreciar a paisagem mágica que se lhe abria à frente.

Conforme lhe havia sugerido Cristina, ele começou a pensar no futuro. Com o passado estava tudo terminado. Ele estava feliz, pois diante dele se estendia um vasto horizonte e abriase-lhe o caminho aos campos claros da ciência pura.

— Então, adeus meu passado sombrio apesar das alegrias passageiras. Avante, em direção à luz! - murmurou ele.

Arthur apenas sorriu, daqui para frente os Tuzov serão livres e felizes para viver suas vidas sem sombras.


PHFIC - Terrifico Fantasma - Capítulo X – Reviravoltas

Cristina cada vez que se encontrava na antecâmara da cripta mostrava-se confiante, segura e certa que seu objetivo agora era salvar a Tuzov perdida. A luz que agora encobria suas mãos era o sinal, suas visões agora eram cristalinas, se via em uma grande clareira com uma túnica branca e uma tiara dourada. Instruida pela voz estudava antigos livros e fazia interessantes descobertas, pareciam não ser mais novidades pela facilidade em entender-las. Ela se movimentava com tranqüilidade devido a prostação do marido e porque Érica apenas se preocupava com suas brincadeiras.

Enquanto que em Montgnac, Carol e Fabiana são forçadas a participar dos estudos e iniciações satânicas por Sarah além de seus bacanais e suas festas, aqueles comportamentos eram repulsivos para as duas moças, mas crescia dentro delas um ódio que em breve poderia explodir.

Fabiana lembrava apenas de seu casamento, a sua alegria ao entrar na capela, seus sonhos, os passos decididos ao lado de seu pai, a felicidade parecia abrir as portas para ela, o marido que sempre sonhou, muitas flores perfumando o altar, os arranjos nos bancos da capela, tudo um ambiente de sonho, agora vivia mergulhado em um pesadelo sem fim.

Juliana Marotti olhava para Fabiana com fúria intensa, afinal ali estava casando o homem de sua vida, mais uma vez a felicidade lhe barrava o acesso, lembrava do momento odioso quando casou com o barão Kozen, só tinha amargura no coração e pretendia tornar a vida de Fabiana um inferno.

Mestre Leonardo analisando alguns papiros começa a falar com Sarah:

- Ele não morreu, ele está presente entre nós!

Sarah fica petrificada com a noticia, pela primeira vez notou uma preocupação no rosto de Mestre Leonardo, suas sobrancelhas arqueadas demonstração uma inquietação que há muito não era expressa.

Ela decide intensificar seus treinamentos com os noviços, tirando deles todas as energias para o efeito final. Queria dominar a região novamente e ter condições de impedir uma nova derrota.

Dor e sofrimento passam pela sua mente, procura se saciar nos festivais e nos bacanais, mas já não tinha um repositório necessário para seu prazer, nem as constantes freqüências a cripta de Montgnac lhe proporcionavam aquilo que buscava, necessita de mais e mais, arrisca em uma estratégia perigosa: convoca sátiros e faunos para seus festins e torna isto de difícil manejo, notava cada vez mais fracos seus poderes.

Afinal seu banho com sangue de virgens não mais funcionava, decidiu que daqui para frente, utilizaria o poder total e para isto iria utilizar todos os recursos a seu dispor em Komedhor.

Obrigado por Sarah a se aprofundar em feitiços, Fabiana cada vez mais notava que aquilo não lhe era estranho, mas guardava para si cada avanço. Sabia ocultar qualquer progresso, que poderia em um momento de fraqueza começar sua vingança, seu alvo já previamente escolhido, seria vitima fácil.

Vasculhando cuidadosamente os livros de magia as suas lembranças vinham nítidas e com detalhes nunca antes estudados, aprendera a tirar o sinal de sua virilha e com cuidado instruiu a Carol para que pudesse tirar a sua, mesmo assim não demonstravam nenhuma diferença nos ritos e costumes que eram obrigados a seguir, agora aquela noite era ideal, Sarah, Mestre Leonardo Juliana Marotti e Zatorsky estavam longes de Montgnac.

Notando o afastamento de todos para Komedhor e aprisionando o Barão no calabouço, o bispo Jacques Noir decide dar uma festa particular, todos os seus companheiros de vícios e orgias foram convocados, a luxúria era apenas uma parte dos festejos, bebidas em profusão, espetáculos dantescos.
Madrugada alta, Fabiana começa a fazer evocações e a primeira seria a banshee Bean-Nighe , suas práticas e rituais acabam por repercutir no grande salão de Montgnac, onde surge uma lavadeira, lavando roupas sujas de sangue, também aparecem uma jovem e bela mulher, e uma velha repugnante. Suas faces são sempre muito pálidas como a morte, e seus cabelos por vezes são negros como a noite ou ruivos como o sol. Pelo gemidos, que ela reconhece que seja de uma Banshee e som especialmente triste e melancólico como do uivo do vento. Após estes eventos Fabiana e Carol vão descansar.
Ao acordar, Fabiana encontra no salão algumas pessoas gemendo e outras já mortas, o bispo Jacques Noir ainda moribundo pede ajuda:
- Me ajude! Estou morrendo
Fabiana com fúria coloca o pé no pescoço do bispo e fala:
- Queimem no inferno, seus leprosos.
Satisfeita com sua vingança, Fabiana caminha em direção ao quarto de Carol e diz:
- Estamos vingadas, Carol
Visualizando tudo de Komedhor, Sarah comenta com Mestre Leonardo o bom instrumento que Fabiana utilizou para acabar com o bispo lascivo.
- Sempre vencido pela luxúria, sempre vencido pela falta de controle de seus instintos. Como ele é fraco, mereceu morrer e ainda mais aos poucos sofrendo muito.
Mestre Leonardo não se mostrava muito preocupado com a morte do bispo, apenas fazia consultas aos seus papiros e fazia evocações em seu laboratório A cada consulta ficava mais preocupado com seus destinos, os vincos na testa cada vez se pronunciavam mais.
- Livre-se de seu marido Sarah e você Juliana Marotti acabe com aquele boneco no calabouço.
Era uma ordem que Sarah não tardaria a cumprir, pelo portal ela chegaria a Montgnac, levando Carol consigo, ela seria sacrificada em honra a Pratissuria.
Juliana Marotti desce os degraus, chega até o Barão e cospe no seu rosto:
Seu fim chegou, a vadia vai acabar com você, e vou fazer que isto seja da maneira mais dolorosa possível, está vendo a roda, é lá que você vai ficar, eu quero que cada pedaço do seu corpo seja arrebentado, quero ver seu sangue jorrar e daí vou beber você, vou festejar a sua morte.
Fabiana que já conhecia os rituais de Sarah, evadiu-se de Montgnac e foi para perto de um grande carvalho, posicionou-se a lado oeste e depositou um copo com água, sal e uma concha marinha no solo junto a arvore.
Cristina, alertada que deveria ir ao encontro de seu destino, sai da cripta junto com seu acompanhante, para não atrapalharem, ele coloca Eric e Érica em sono hipnótico.
- Será melhor para eles, não tem a exata dimensão de que vamos fazer ou enfrentar.
Ambos pegam uma carruagem veloz até o velho carvalho, no caminho, velhas recordações e novas preocupações.
- Será que conseguiremos atingir nossos objetivos e salvar a Carol?
- Claro minha querida, tudo irá dar certo, aliás sempre dá.
- Sempre dá? Parece que isto já foi feito antes
- Sim, já foi feito, por isto que devemos impedir que, desta vez, Mestre Leonardo e Sarah tenham mais sorte.
- Você conhece eles ?
- Claro, já nos encontramos antes, mas nada temas, temos dois bons amigos que nos ajudarão.
- Como assim?
- Não se preocupe, que eles nos encontrarão em breve.
Chegando a grande carvalho, encontraram Fabiana, inicialmente aguardaram os dois amigos para preparar o circulo mágico, muito embora Cristina e Fabiana não entendendo nada do que foi feito, estava agora montado um altar para a Deusa Brigid nas cores vermelho, laranja e verde. O Acompanhante de Cristina manda-as se afastarem e a instrui a evocar a deusa:
"Bride, Dama Supeior,
Chama súbida;
Que o brilhante e luminoso sol,
Nos leve ao reino eterno."
Eu construo meu fogo hoje
na presença dos Deuses Sagrados do Céu.
na presença de Brigid da forma bonita
na presença de Lugh de todas as belezas
sem ódio, sem inveja, sem ciúmes,
sem medo ou horror de ninguém sob o sol
porque meu refugio é a Mãe Sagrada.
Ó Deuses, acendam o fogo de amor dentro do meu coração,
por meus inimigos, por meus parentes, por meus amigos
pelo sábio, o ignorante, e o escravo
da coisa mais humilde
até o nome mais alto.

Naquele momento uma flecha de fogo saiu dos céus e entrando rapidamente em Komedhor acerta o coração de Pratissúria, no momento em que iria abocanhar Carol em sacrifício, a fera solta um gemido surdo e cai ao solo para surpresa de todos. A dançarina de Kali, Vairami aparece em sua forma fluidica e com suspiro suave diz:
- Estou livre desta maldição secular, logo após cobre Carol com uma densa névoa esverdeada e perante todos some levando a jovem junto.
Nervoso, mas contido, Mestre Leonardo fala com Sarah:
Não adianta mais ficar aqui neste castelo, nenhum lugar agora é mais seguro para nós, teremos que sair e enfrentar-los, ele está de volta, nada que fizermos daqui para frente mudará isto, vamos para o grande carvalho e venceremos.
Em frente a arvore, Vairami entrega o presente precioso para Cristina, Carol ainda entorpecida pelas poções de Sarah, aos poucos tenta recobrar a consciência. A condessa feliz com a filha nos braços, apenas olha para a mesura que Vairami faz para seu acompanhante:
- Mestre, mais uma vez eis me aqui ao seu dispor, sabes que fui pega em uma cilada de Mestre Leonardo, encantada naquele tigre empalhado, precisava de sangue para nutrir a aquela animação bizarra. Estou aqui para que possamos mais uma vez evocar a Deusa Kali para vencer as forças do mal.
- Aguardemos que as forças das trevas não tardarão a vir, fique vigilante, quando o momento chegar estejamos a postos.
Em momento de preparação Cristina faz a invocação a Brigid, assumindo o papel de sacerdotisa e os demais assumem os outros papeis. Eles falam:
Ó Brigid abençoada,
Mãe de Deuses,
Mãe dos Homens,
Me salva de cada mal,
Me salva, alma e corpo.
Cristina coloca o seu xale na cabeça e fala:
Ó Brigid vitoriosa, Chamo (Chamamos) você, Grande Deusa, de seu lugar com as Tuatha Dé Dannan.
Poetisa dos Deuses
Defensora da Lareira
Juíza da Vida
Cristina oferece o leite, colocando-o no copo vazio perto da vela. Agora ela coloca três pães no prato para o pão e coloca o prato perto da vela. Ela fala uma simples reza pedindo à Deusa a aceitar a
oferta do leite e pão. Depois ela fala uma reza para abençoar o resto do pão e leite que os participantes vão dividir.
Com seus braços cruzados sobre o peito ela fala:

Ó Deusa Brigid,
Prepara nossas corações
Para que amor possa viver.
No mundo escuro
Deixa-nos sempre ter tua Luz.

Deixa tua capa
cobrir essa família,
No meio do inverno
Deixa teu fogo esquentar.

Nossas vidas são uma vida
Nossos sonhos, um sonho só.
Deixa meu povo dividir na vida
e sempre conhecer tua bondade.

(Ó Mãe de Deuses)
Defenda-nos com teu escudo
Vigia-nos com teu olhos.
Deixa meu povo ser teu povo,
Seja no mar ou na terra.

O cordeiro sempre correrá para a ovelha,
O passarinho sempre chorará por comida,
O bezerro sempre procurará a vaca,
A Brigid sempre será conosco.
Cristina toma um pouco do leite e pão, e passa-o para os outros participantes. Eles bebem e comem o pão. Ela deixa a vela acesa por algum tempo. Depois, a sacerdotisa ajoelha-se em frente a vela com as mão abertas. Ela faz uma reza de agradecimento para Brigid. Ela fala :
Eu apago este fogo com os poderes dos Druidas
Os deuses guardam-no, nenhum inimigo disperse-o.
Brigid seja o teto sobre nossa casa Para todos dentro
E para todos fora.
A espada de Nuadha na porta, Até a luz da manha.

Ela Extinge o fogo. Todos falam:

Slán leat, a Bhríd!

PHFIC - Capítulo IX – Surpresas Desagradáveis

O dia começava sonolento, aquele momento era ao mesmo tempo alegre e triste, Paulo, Juliana Fornazier e Nympha estavam alegres pela volta para casa, porém muito tristes em deixar Fabiana, agora casada e a família Tuzov LaFonte. As malas iam sendo colocadas na carrugem e parece que para Paulo aquilo significava um alivio: voltar para seu emprego, ter seus bens restituídos e principalmente ter a sua família a salvo longe das ameaças de Juliana Marotti já o deixava eufórico. Juliana Fornazier e Nympha deram longos abraços em Cristina e Erica e embarcaram no coche, os longos meses que passaram ali não apenas deixava marcas físicas, mas também sentimentais. Agora era retornar para São Petrogrado e seguir suas vidas.

Fabiana em seus primeiros momentos de casada recebia atenções de Zatorksky e de Sarah, que organizaram os primeiros saraus, convidando toda a sociedade da cidade, fazendo assim uma ampliação de seus contato sociais.

Juliana Marotti alheia a estes momentos continuava estudando os papiros com Carmina Gadelica, porém não lhe agradavam estes textos, olhou outros papiros e lhe agradou muito a leitura sobre a esfinge de Sheela-na-gig, estava na hora de fazer o ritual para chegarem ao seu objetivo segundo. Conferiu tudo, revisou e imediamente guardou tudo e aguardou chegar o momento.

Eric preocupado em não conseguir saldar sua divida, apenas vai renegociando os saldos restantes, recebe a visita do mensageiro, ao abrir a mensagem procura sentar-se: seu tio Louis foi encontrado morto com sinais de tortura e marcas no pescoço, nos braços e pernas. Sentiu uma grande tristeza, afinal o tio Louis era o único parente vivo que ele contava, cada vez mais acreditava que seu tio tinha caído em uma cilada para contrair a divida do jogo. Muito embora fosse um LaFonte decidiu enterrar-lo em Gorki, em ala oposta dos Tuzov, Cristina estimava muito o tio de seu marido, mas aceitou resignada a morte, Carol e Erica manifestaram pesar ao pai, mas fugiam do assunto e da cerimônia.

A mesma mensagem chegou em Montgnac com outro mensageiro, só que a reação foi outra: Cara fraco, ele foi tão inútil que morreu já na primeira sessão, que decepção deve ter sido para o Mestre, ele gostava tanto de fazer esta sessão durarem inúmeras hora e ele foi morrer logo na primeira hora. Sarah queima a mensagem e se dirige para a cripta e encontra-se com Juliana Marotti:

- Tudo pronto para a nossa “festa” começar ? É inevitável que saia a contento estas novas atividades, não se evoca uma banshee impunemente.
- Quando que Zatorsky dará a tiara de Vairami para Fabiana? O sarcasmo entoado por Juliana Marotti parecia ser uma nota de vingança no ar.

- Esta noite faremos um grande sarau e neste evento será presenteado a jóia a ela

Sarah saiu e voltou rapidamente. Despiu Juliana, trouxe-lhe uma larga capa de seda, depois saiu e retornou com uma jarra de vinho e duas taças que colocou sobre a mesa. Enchendo a taça de vinho, começaram a beber e comemorar o sucesso de seu emprendimento a noite.

Em Gorki, Carol tinha sido convidada para passar alguns dias com Fabiana em Montgnac, Eric não queria que ela fosse, porém a tristeza profunda o convenceu do contrário e ele consentiu que ela fosse se encontrar com a amiga. Sentia um aperto no peito, mas procurou se controlar e desviar seus pensamentos, já que o corpo de seu tio estava chegando a Gorki e precisaria fazer os serviços fúnebres, aproveitou que o Bispo Jacques Noir não estava e convidou Padre Timon para as pompas fúnebres, já que o bispo lhe causava um mal estar com sua presença. Cristina, triste com a ida da filha, mas conformada se pos a continuar seu bordado.

Era um claro e silencioso entardecer de verão. O sol avermelhado estava se pondo, dourando com seus raios tudo ao redor, em Montgnac os preparativos estavam a todo vapor: os portões estavam escancarados e, no quintal, junto às gamelas com feno, estavam amarrados uns 20 cavalos selados. Havia alguns cães por perto e, sob a cobertura, havia uma carroça carregada com carcaças de dois cervos e um javali.

A Familia LaFonte recolheu-se mais cedo naquela noite, tudo estava tranqüilo, sem ruídos quando Cristina ouviu a voz: Levante-se querida, preciso falar contigo! imediatamente ela colocou uma capa de seda leve e deslocou até a cripta, esgueirando entre as paredes e coluna, ela girou a manivela, pegou a chave e abriu o portão de ferro, logo foi orientada a sentar em um pequeno banco de mármore junto ao sepulcro proibido:

- Nada temas minha querida, tua alma será salva, aquele som foi se aproximando e aos poucos uma figura familiar foi se mostrando. Cristina a medida que reconhecia as formas, se assustou e fez menção de levantar-se, mas o medo a impediu, mas depois de reconhecer totalmente a pessoa, um breve sorriso lhe estampou o rosto.

- Shh! Fez um gesto com o indicador na frente dos lábios indicando silêncio. Dias muito difíceis virão, mas não temas porque estou ao teu lado, uma Tuzov já se perdeu e nada poderemos fazer agora por ela, mas a ti e tua filha poderemos salvar, neste instante coloca no seu pescoço um T estilizado e lhe diz: esta será tua proteção contra os tristes acontecimentos que ocorrerão daqui para frente, para Érica é só tu trocar o rosário dela por este, e lhe mostrou um rosário de cristal violeta.

Quanto ao teu marido nada temas: ele não é um Tuzov e estará imune contra estas atribulações, somente não permita que ele sepulte seu tio nesta ala da cripta, seria desagradável conviver com a sua alma pertubada por aqui. Cristina fez menção de perguntar pela alma de Louis, mas o sinal de silêncio lhe foi repetido, apenas um carinho suave lhe foi feito nos cabelos e um beijo na fronte foi sua despedida, assim como apareceu a imagem sumiu sem deixar vestígios. Ela habilmente subiu os degraus e fez tudo como foi indicado, após uma brisa roçou seu rosto e ela adormeceu.

Em Montgnac, Zatorsky comandava o banquete com muita bebida e comida, estava sendo muito diferente dos outros saraus, e ele ainda no controle de suas emoções colocou em público a tiara de Vairami na testa de Fabiana, que ostentava um lindo vestido de cetim vermelho, aquela que parecia ser a senha para todos os acontecimentos da noite, os desvarios eram vários até a chegada do Barão de Montgnac e alguns amigos.

No meio da sala havia uma grande mesa coberta por diversos pratos e vinho. Restos de pastelões, carne de caça e as garrafas e copos vazios jogados no chão testemunhavam ostensivamente que a bebedeira já corria há muito tempo e os rostos vermelhos dos presentes demonstravam o farto consumo. Naquela hora a comilança já havia terminado e, afastados os pratos para um canto da mesa, os presentes jogavam dados em meio a montes de ouro, prata e cobre.
O grupo era surpreendente: o bispo Jacques Noir e padres, a julgar pela tonsura, quando esta revelava o seu cargo clerical, alguns militares e mulheres, entre as quais três monjas, cujos trajes desarrumados e cujas poses indecentes atestavam o grau de sua decadência. O centro da mesa estava ocupado por um homem ainda jovem, de uns 35 anos, mas totalmente calvo; seu rosto obeso e amassado testemunhava sua vida agitada. Em seu colo estava sentada uma cigana de saia multicolorida, braços e pescoço desnudos e cabelos soltos que caíam como crina negra pelos seus ombros.
No momento em que Barão e amigos entraram, ela levantou o copo de dados e, rindo alto, jogou os dados sobre a mesa. Com o aparecimento deles o barulho da sala silenciou repentinamente.

- Vejam, a Sarah nos trouxe reforços: seu marido e amigos - Velhacos, assim como nós! - Exclamou Zatorsky sentado na mesa. Você, guerreiro, fique à vontade, sente ali perto do Zdenka, que logo desabará para debaixo da mesa e deixará para você, de herança, a maravilhosa irmã Berta.

Sarah, Zatorsky se divertiam com o triste espetáculo e com visíveis sinais de embriaguez, se juntaram na festa junto com Fabiana que dançava desnuda em cima de uma mesa e fazia uma coreografia sinistra e hipnótica, todas no salão começaram a comportarem com se fossem animais e davam gritos e urros que transporam os portões do palácio.

Enquanto isto na cripta Juliana Marotti fazia o Lamentum tenebricosum, evocava Fraya.

O Castelo ecoava lágrima e lamentos entre suas paredes e até altas horas da madrugada, só terminando com o cantar do galo.
O torpor da festa durou o dia inteiro, ao anoitecer Zatorsky levou Fabiana para a cripta e começou a iniciação para o mundo das profundezas, Carol que havia acordado no meio da festa e foi para o salão, horrorizada com a cena, tentou fugir, mas levou uma pancada na cabeça e foi possuída no local, agora se encontrava na cripta deitada sobre uma maca, com ervas aromáticas e fricção de óleos essenciais na suas temporas, ela acordou:

- O que aconteceu? Porque estou aqui? O que aconteceu comigo?

Agora tu és mais uma seguidora de Vairami a dançarina da deusa Kali, e não há chance de fugires daqui.... Se quiseres viver apenas me siga, ou então serás sacrificada aqui mesmo.

Sem que notassem, Sarah e Juliana Marotti as imobilizaram e as conduziram para cerimônia.

Um pouco antes da meia-noite, eles colocaram um traje de malha preta e toucas da mesma cor, semelhantes a coifas da Idade Média, que se aderiam totalmente na cabeça e encobriam os cabelos. Em seguida, Sarah pendurou no pescoço o bastão mágico e ambos passaram ao laboratório. Ali acenderam quatro velas e trempes com ervas aromáticas, que ardendo com estalos difundiam uma fumaça densa e acre. A seguir, Zatorsky os levaram para dentro do centro do círculo mágico, fora do qual havia duas cadeiras.

Erguendo os dois braços, Sarah pronunciou cadenciadamente as fórmulas da evocação, já conhecidas de Zatorsky e Juliana Marotti, mas totalmente desconhecidas para Fabiana e Carol, e, quase imediatamente, na ponta do bastão, fulgiu uma chama vermelho sangüínea. Então, utilizando o bastão como uma pena, ela desenhou no ar um sinal cabalístico, cujas linhas, fosforizando, vibrando e estalando feito fogos de artifício, projetavam-se na atmosfera. Um minuto depois, formou-se no ar uma nuvem que logo se densificou numa espiral de fumaça negra, dissipou-se, fazendo surgir a figura colossal de um homem: sua roupa cheia de pêlos, bem aderida ao corpo, delineava formas musculosas e peito largo.
Asas vermelho-sangüíneas erguiam-se atrás de suas costas e dos ombros caía uma capa vaporosa cinzenta que se estendia por trás, perdendo-se na penumbra. A capa parecia ter sido urdida de um número infindável de rostos humanos, cujos contornos imprecisos se fundiam num só, e apenas seus olhos fosforescentes feito brilhantes ardiam na massa nevoenta. Os traços regulares do rosto comprido e magro transbordavam de astúcia e força poderosa: os olhos brilhavam como fogo abrasador, enquanto dois feixes fosforescentes, que se irradiavam de sua fronte, tinham o aspecto de chifres curvados.

— Saúdo-o, Sarmiel! - pronunciou Sarah fazendo uma mesura ao estranho indivíduo que tinha o aspecto de pessoa real.

Em seguida, virando-se para Zatorsky, que calado e pasmo examinava o visitante, acrescentou:

— Estenda a mão, irmão, ao seu novo aliado, senhor dos espíritos que erram na primeira esfera do nosso planeta. A ele são submissos milhões de criaturas maléficas, invisíveis, descontentes, revoltosas e nocivas, descartadas para o espaço depois da vida, cheia de leviandades e delitos. Ele o servirá e ajudará quando for necessário. Dominando o tremor interno, provocado pela visão daquela inusitada criatura, Zatorsky estendeu a mão.
No instante em que os dedos deles se juntaram sob o círculo mágico, do bastão de Sarah espargiu uma chama que, à semelhança de uma flecha ígnea, perfurou as suas mãos, selando assim a aliança celebrada. Um sorriso enigmático percorreu o rosto do terrível demônio e o seu olhar flamejante pareceu querer sugar o rosto pálido, mas decidido de Zatorsky.

— Não me tema! - disse ele em voz sonora e gutural. - Quando você conhecer os meus súditos, convencer-se-á que em suas almas há tanto bem quanto mal. Não nos erguem capelas; não se defuma o ládano em nossa homenagem; não nos entoam hinos de louvor, no entanto, nenhum crime, nenhuma queima ou desgraça é perpetrada pelas nossas mãos. Somos apenas "demônios" e todos ignoram como é difícil o nosso trabalho para o bem de nossos irmãos na humanidade...
Aliás, é sempre assim! A gratidão é para os benfeitores consagrados, canonizados; os carrascos amaldiçoam-se e os juizes glorificam-se. Um toque de zombaria soava nas palavras do gigante.

Recusando-se com um gesto brusco a sentar-se na cadeira e continuar a conversa, o espírito deu um passo para trás. Pela sala passou silvando uma rajada fria de vento e a visão desapareceu na coluna de fumaça negra.

Quando se dissipou o último remoinho da névoa negra, Sarah pronunciou uma nova fórmula de invocação e desenhou no ar um novo sinal cabalístico. Um minuto depois junto ao círculo mágico, apareceu outro espectro. Não era um gigante como o seu predecessor. Era um jovem alto e esbelto; o traje vermelho
que aderia ao seu corpo delineava suas formas maravilhosas. Seu rosto pálido e transparente distinguia-se por uma beleza funesta.

Nos grandes olhos negros e impenetráveis, fulgia uma expressão de energia invencível, misturada com uma fria crueldade. O sorriso que brincava em seus lábios purpúreos e os dentes alvos como pérolas denotavam algo realmente diabólico. Uma touca justa cobria-lhe a cabeça e sobre a fronte, entre duas chamas, erguia-se uma cruz brilhante em forma de chifres. No pescoço, havia uma corrente multicolor da qual pendia, sobre o peito, uma grande estrela de ouro. No braço, enrolava-se uma corda com uma flecha ígnea na ponta do laço. Atrás dele, via-se uma larga auréola refulgindo como uma chama de incêndio. Ali, envoltos em névoa fumacenta, estavam postados dois seres em malha negra e cintos vermelhos, longas chamas tremeluzentes atrás das costas e pequenos crucifixos na fronte.

O recém-chegado estendeu a mão de beleza clássica, fina e branca, de dedos delgados, e Zatorsky, quase maquinalmente, estendeu a sua - imediatamente um relâmpago selou a aliança entre eles.

Desta vez Sarah fez uma mesura com visível respeito e disse a Zatorsky:

— Esse com quem você celebrou a aliança é o rei das larvas. Você não precisa saber o nome dele, porque bastam símbolos e fórmulas sagradas para que você possa, quando for necessário, chamar em seu auxílio tanto ele como um dos seus subordinados. Você ainda não tem uma noção exata do que são larvas, essas asquerosas e nocivas criaturas que povoam o mundo invisível à
espreita dos vivos para destruí-los. Para domá-las, é necessário existir um poderoso senhor, tal qual é o seu novo aliado.

Mais sociável que o seu predecessor, o senhor das larvas sentou-se na cadeira a ouvi-los, brincando com o anel decorado com uma gema vermelha como uma gota de sangue. Com as últimas palavras de Sarah, uma expressão mista de zombaria e cansaço esboçou-se pelo belo semblante do espírito.

— As suas palavras, Sarah, ainda são uma letra morta para o seu discípulo - disse ele com um leve sorriso.
– Nele ainda estão por demais vivos "o homem caduco" e o psiquiatra moderno para que possa penetrar no nosso mundo, rejeita do tão categoricamente pela "imaculada" ciência que só admite aquilo que pode apalpar, pesar e dissecar com bisturi.
— Você tem razão! O irmão Zatorsky ainda é cego em muita coisa, mas ele tem vontade e obstinação - argumentou Sarah. - Para crer e entender é necessário enxergar. Eu calculo que em breve estarei com ele em seus domínios e espero que você possa mostrar-lhe a maléfica atividade das larvas e o modo como você as amansa.
— Venham, terei prazer em mostrar-lhes o meu reino - prontificou-se sorrindo o estranho visitante. – Vocês escolheram uma hora bem oportuna para a visita. A Terra envia-nos profusamente belos exemplares dessas "maravilhosas" criaturas e os encarnados se esmeram em acertar-lhes o gosto. Temos trabalho à beça, pois você mesmo sabe que não há nada mais difícil do que arrancar pessoas de uma mesa bem servida. Até mais!

Ele levantou-se, fez um gesto de despedida e pareceu ter afundado na penumbra vermelha que, em seguida, dissipou-se.

— Eu lhe mostrei dois terríveis zeladores da ordem, senhores dos exércitos do Mal - disse Sarah sorrindo ao ver o rosto perturbado e desnorteado de Zatorsky.
– Agora nós chamaremos ainda alguns chefes dos operários das corporações e espíritos inferiores, tais como animais e outros seres. Ante o olhar surpreso, mas agora menos medroso de Zatorsky, desfilou uma série de criaturas, um mais medonho que o outro no que dizia respeito à sua forma e cor. Ele, provavelmente, sentia aquilo que devia ter sentido o primeiro cientista que descobriu com o auxílio do microscópio o novo mundo, inacessível ao olho comum.
Por fim, a diversidade e enormidade de símbolos e formas que Sarah pronunciava com corajosa segurança (todos os visitantes o conheciam e ele conhecia a todos) cansaram Zatorsky; apesar do febril interesse com que ele ouvia e olhava tudo aquilo, sentiu algo semelhante a uma fraqueza. Sarah achou que já suficiente para todos e os dispensou para descansar, mas reteve Fabiana e Carol na cripta.

- Meninas vocês tem muito a aprender, ainda mais como me satisfazer.

- Satisfazer-te ? quem você pensa que é? Carol indignada tenta se soltar do abraço e da mão de Sarah em seu corpo.

- Um golpe seco e surdo na testa de Carol a jogou no solo desacordada e ela foi colocada de novo na maca.

- O inferno pode ser melhor ou pior, depende de você minha querida, Sarah a prende com seus braços.

- Eu serei sua, mas me ensine tudo que você sabe.

- Muito bem querida, agora vou ensinar o que se faz com um dérriere tão bonito como o seu....

Longa horas Sarah consumiu a sua luxúria com Fabiana, no andar superior, Juliana Marotti e Zatorsky também se entregavam aos seus desejos carnais.

Em Gorki, Eric preparou todas pompas fúnebres e sepultou no local indicado por Cristina, no lado oposto dos Tuzov, após ele se recolheu ao seu quarto e de lá não saiu mais, Erica fez o mesmo.
Cristina orientada pela voz foi até a cripta, aberto o portão, a voz se dirigiu a ela, mostrando um outro corredor oculto que dava para um compartimento amplo, neste lugar, devidamente preparado, a pessoa a colocou confortavelmente sentada e começou a falar docemente e falar algumas palavras em idioma desconhecido, aos poucos Cristina se viu em frente ao campo, com uma túnica alva e com a brisa tocando levemente seu rosto, seu pensamento disciplinado fazia surgir imagens cada vez mais perfeitas e complexas e a pessoa apenas sorria, cada vez mais concentrada ela fez que o medalhão e o T estilizado brilhassem fundindo um ao outro. A luz de cristal emanada fez que Cristina ficasse confusa, mas a pessoa apenas pediu um pouco de paciência para ela explicar tudo, agora ela tinha o medalhão do cristal de luz, apenas cinco pessoas tiveram e sabiam manipular o seu poder. Agora sim era a hora de parar de se esconder, era hora de agir, mas com calma, sabedoria e em conjunto com as forças do bem.

PHFIC - Capítulo V III – Casamento de Fabiana

Num dia encoberto de agosto, por essa estrada bem mantida e arborizada vinham duas carruagens. Na primeira, de tamanho menor e aberta, estavam sentados um homem e uma mulher que trajava um vestido azul-escuro e um chapéu da mesma cor. Essa tonalidade escura acentuava ainda mais a brancura ofuscante de sua tez e a excepcional cor pálida de seus cabelos loiros, que poderiam ser tomados por brancos, não fosse um leve matiz dourado que lhe conferia um toque especial. A segunda carruagem era uma espécie de um grande e amplo furgão, provido na dianteira de um assento baixo, no qual estavam acomodados um homem de meia-idade e uma camareira idosa, de pouca conversa.

Eles levavam consigo uma arrumadeira idosa, cegamente fiel de Fabiana. O casal estava calado, contemplando ora aquela paisagem tristonha, que se abria diante de seus olhos, ora a silhueta escura do castelo, que se desenhava em massa negra no fundo cinzento do firmamento. O tempo piorou. Do oceano assobiavam rajadas de vento; o horizonte cobriu-se de nuvens negras e o rugir da tempestade tornava-se cada vez mais audível.

— Pelo jeito nossa volta ao castelo vai nos recepcionar com um furacão não muito amigável - observou sorrindo Paulo.

— Oh! Já estaremos em casa quando a tempestade desabar, ainda que seja um espetáculo grandioso - observou Juliana Fornazier.

Entrementes, a carruagem, atrelada a cavalos de puro sangue, percorreu rapidamente a distância que os separava do castelo, atravessou a ponte levadiça, passou por baixo dos portões abobadados e parou junto à entrada, coberta por lajes de pedra. Na ampla e escura ante-sala, eles foram recepcionados por administradores: um velho calvo de barba prateada, uma governanta idosa e alguns criados de rostos enrugados e carrancudos : A condessa Cristina em suas crises nervosas gritou algumas palavras desconexas e foi levada para seu quarto e o conde Eric está tentando acalmar-la. A noticia da possível perda de Gorki estava fazendo muito mal para sua saúde mental, decidida a resolver a situação, Padre Timon é chamado para atender o caso. Toda a alegria que o casal Surotsev trouxe após as compras na cidade para o casamento de Fabiana se esvaíram e também as tratativas de Zatorsky com o bispo Jacques Noir para oficiar a cerimônia se diluíram na tensão da crise da condessa.

Na alvorada vemos o Padre Timon surgindo pelas estradas de Gorki atendendo as súplicas de Cristina e chegando para atender-la, os portões se abriram. Um velho criado correu ao encontro do clérigo, ajudou-o a desmontar do cavalo e informou: "O conde está ausente, mas a condessa o aguarda Padre, e ordenou que conduzíssemos o senhor até ela".

No alto da escada, a própria condessa recebeu-o; Com amabilidade e respeito perguntou sobre sua saúde.

- Sinto-me bem, graças a Deus; mas, mesmo assim, vou pedir-lhe pousada por alguns dias.

Depois da viagem a cavalo, a ferida da época da invasão ao castelo de de Komedhor passou a me incomodar e gostaria de descansar.

Uma hora depois, reforçado por um desjejum, o padre estava sentado a sós com a dona da casa, em seu quarto, longe de ouvidos indiscretos.

Com indisfarçada impaciência, ela não tirava os olhos do convidado, finalmente, ela não agüentou e, inclinando-se para o prelado, falou baixinho para o padre:


- Estou escutando vozes.

- Que vozes minha filha?

- Vozes dizendo que uma Tuzov já foi perdida e que preciso agir para que outros Tuzov não se percam. A condessa começou a respirar pesadamente, como se lhe faltasse o ar. Suas mãos tremiam tanto que o lenço com que ela rispidamente enxugava a testa quase escapou por entre os dedos, contendo com esforço o próprio nervosismo.

- Conte-me direito esta história, Padre Timon se ajeitou na cadeira e começou a ouvir os relatos de Cristina.

Ao sair do quarto e com ar circunspecto, o religioso recolheu-se ao aposento dos hóspedes. Ali ficou pensando nas vozes e na história da Tuzov perdida, quem poderia estar perdida? Haviam três Tuzov : Cristina, Carol e Érica. Pos-se a ler um livro e logo após adormeceu. Acordou-se somente quando foi chamado para o Jantar e com grande desconforto viu que o bispo Jacques Noir estava presente, mas não faria o pernoite ali e sim em Montgnac.

Cristina, na madrugada e em silêncio levantou-se e seguiu para onde as vozes a indicavam, sem conhecer direito o castelo ela foi seguindo com um archote iluminando o caminho, após alguns lances de escada ela viu um dispositivo escondido na parede, acionando-o com delicadeza a porta se abriu e uma escada em espiral a levou para o subsolo onde se localizava a cripta da família Tuzov.

Perto de uma coluna, ela esgueirou-se e chegou a um pequeno nicho onde tinha uma pequena manivela, girada ela descobriu uma pequena fenda na parede, era um molho de chaves, seguindo em frente a direita, uma enorme porta de ferro cobria a entrada, ela coloca uma das chaves e faz girar a fechadura, a porta abre-se e como por encanto a voz diz: minha querida, salvarei tua alma, vá , descanse e quando acordares não lembrarás de nada.

Cristina retornou a seu leito e pela primeira vez em muitos dias, acordou bem disposta e pronta para ajudar nos preparativos para o casamento de Fabiana, junto com Juliana Fornazier, olhou os tecidos, deu sua opinião, sugeriu uma costureira de confiança e procurou ajudar na decoração da capela de Montgnac, onde seria realizada a cerimônia.

Eric ,ao contrário da esposa, se mostrava mais preocupado com os dias que se passavam, ainda não dispunha do dinheiro suficiente para pagar sua divida, ainda dependia muito da colheita e da comercialização, aflito estava também com a falta de noticias sobre tio Louis, sendo que sua ultima carta havia sido antes da chegada da noticia da divida.

Paulo, pressionado pela procura da estátua de Kali, não conseguia dormir e muitas vezes ficava vagando pelo castelo, esperando identificar ou conseguir o paradeiro da obra de arte.

Carol atormentada pelos seus pesadelos, ficava cada vez mais calada e preocupada com sua sanidade mental, afinal o que queria dizer: Você é minha! Que as vozes insistiam em dizer? Viam imagens nos seus sonhos mostrando ela em um campo sendo perseguida por um homem a cavalo, sempre era golpeada na cabeça e acordava em uma sala decorada com muitas cores sombrias.

Erica e Nympha, alheios a este momento triste de Carol, procuravam auxiliar nos preparativos do casamento.

Em Komedhor a agitação não era menor, muito embora o sucesso parecia inevitável, os preparativos não menos intensos, Sarah, Juliana Marotti e Zatorsky estavam em um ritual inicial de evocação. Ela tirou de uma gaveta três cintos metálicos com sinais cabalísticos em relevo e uma corrente com estrela pentagonal vermelho.

— Agora vá até a cortina no fundo do quarto! Eu o seguirei.

Assim que ele se aproximou, a pesada cortina abriu-se como se levantada por mãos invisíveis, deixando antever uma passagem estreita em forma de ponte, através de um abismo negro que se estendia pelos lados. Sem olhar ao redor, Zatorsky atravessou o abismo.

Ergueu-se uma segunda cortina e ele entrou numa ampla sala, redonda como o laboratório, mas praticamente vazia. No centro, sobre o piso de pedra estava desenhado um círculo vermelho, em volta do qual havia quatro trempes com carvões que queimavam em chamas sombrias: roxas,verdes e vermelhas. Por causa do cheiro asfixiante que envolvia o recinto, a cabeça de Zatorsky ficou tonta.

Descalça como eles, vestida na mesma espécie de túnica, Sarah estava parada no fundo da sala junto a uma corda do sino que pendia do teto. Seus cabelos soltos, que caíam até os calcanhares, envolviam-na feito uma capa brilhante.

— Venha e fique no centro do círculo - ordenou ela.

Então Mestre Leonardo, erguendo a espada e acenando com ela para o norte, sul, leste e oeste, entoou um estranho canto, enquanto Sarah começou a bater pausadamente no sino. Os longos e plangentes sons encheram a atmosfera, acompanhando a voz de Mestre Leonardo. A sensação era que se batia num instrumento de vidro. Subitamente o canto e o som do sino interromperam-se.

Após um minuto de tumular silêncio, Mestre trovejou:

— Espíritos da natureza! Venham das profundezas da terra, da água, das alturas do éter e do fogo que a tudo atravessa! Servos do espaço, que movem as forças dos elementos, apareçam a nós!

Com o chamado, a sala encheu-se de barulho. O vento assobiava, a terra tremia e no ar ouviam-se estalidos. Parecia que uma multidão invisível se movia empurrando uns aos outros ao redor dos presentes. A seguir, as densas nuvens encheram a sala numa névoa que, ao se dissipar, logo tornou visível o estranho exército que se apinhava junto ao círculo, fitando em Zatorsky os olhares flamejantes. Eram seres cinzentos de contornos indefinidos, envoltos em véus esvoaçantes.

Aparentemente, eles tentavam traspassar a linha do círculo, mas o ar, de imediato, era recortado por raios e sobre Zatorsky surgia um triangulo roxo. As massas aéreas recuaram e se dividiram em quatro grupos em volta de cada trempe. Agora os seus contornos já eram mais nítidos e podiam ser distinguidas as estranhas e horripilantes formas daqueles seres espectrais. Eles eram vermelhos feito fogo e parecia serem fundidos de ferro em brasa; outros eram esverdeados como se feitos de espuma palustre estagnada.

A única coisa que tinham de humanos - eram os olhos fosforescentes. O terceiro grupo se destacava por suas formas estranhas e estava equipado de asas azuladas. Eles voejavam sem parar em torno da trempe de chama azul. Por fim, entre os rolos de fumaça negra, moviam-se os asquerosos e minúsculos seres com rostos sinistros cinza-terrosos.

Tremendo e suando em bicas, olhava Zatorsky para aquela horripilante turba,. como num sonho, ouvia ele o canto que se entoou no espaço, ora harmônico ora surdo, ora ríspido ora desafinado. Era uma mistura de queixumes, choros, gritos de alegria e ímpetos às trevas.

Então, pela segunda vez, soou a voz estentórea de Mestre Leonardo .

— Espíritos da natureza! Vocês procuram por um senhor, por um campo de trabalho! Ali está o seu novo senhor! Eu os uno a ele e vocês juram obedecer-lhe e ajudá-lo.

Um trovejar ensurdecedor do trovão sacudiu o castelo até as suas fundações. Raios brilhantes cintilaram por todos os lados, envolvendo por uns instantes Zatorskyi, como se por uma retícula ígnea. A terra parecia ter se desfeito, formando a seus pés um negro abismo insondável. No mesmo instante, do outro lado do abismo, desenhou-se um arco de pedra - uma monumental passagem para o ignoto mundo de além-túmulo, envolto em trevas.

Sarah e Mestre Leonardo agilmente se postaram junto do neófito, agarraram-no pelos braços e o empurraram para frente.

— Atravesse sem recuar os quatro portões do invisível ou será o seu fim! - gritaram eles energicamente.

Aflito, cerrando valorosamente os dentes, Zatorsky lançou-se para frente e atravessou o abismo. Ao passar a soleira do arco, ele se viu na mais completa escuridão. A terra estava escorregadia e parecia que a qualquer minuto poderia ruir sob os pés. Não obstante, ele avançava olhando para a vela que segurava nas mãos, empurrado por um forte vento que lhe soprava nas costas.

Após um minuto, que pareceu uma eternidade, no lusco-fusco desenhou-se um segundo arco, de forma diferente, que servia de entrada para um corredor estreito, praticamente escuro. Corajoso e resoluto, Zatorsky pôs os pés naquele passadouro e, imediatamente, de todos os lados, viu-se cercado por animais medonhos. Eram bichos rastejantes, morcegos e insetos venenosos que surgiam das trevas, mordendo-o e se agarrando a ele.

Renhido, quase fora de si, prosseguia Zatorsky o seu caminho pela terra deslizante, sem se dar conta do que estava pisando. Uma luz ofuscante que lhe bateu no rosto fez com que ele estacasse. O corredor dilatou-se subitamente e revelou uma nova porta, arremessando chamas como do interior de uma fornalha. Junto a ela estava sentado um animal fantástico com rosto humano, de tamanho gigantesco. Atrás das costas do monstro erigiam-se imensas asas, o seu olhar ameaçava de morte a qualquer um que se aproximasse.

Um suor gélido cobriu o rosto do jovem médico, mas em seus ouvidos soavam ainda as palavras de seus orientadores.

— Vá em frente sem recuar, senão será o seu fim!

E com coragem desesperadora ele lançou-se adiante. Pareceu a Zatorsky haver mergulhado numa corrente de fogo. Os olhos do terrificante ser, como ferro em brasa, penetravam-no, e ele, instintivamente, ergueu a mão com a vela. Para sua surpresa, notou que o monstro abaixou a cabeça e começou a andar à sua frente como se quisesse indicar o caminho.

Subitamente as chamas se extinguiram. Ante o olhar assustado de Zatorsky, estendia-se uma superfície de água. O vento uivava levantando gigantescas ondas revoltas, lançando no rosto do neófito e do monstro ígneo tufos espumosos das cristas de ondas.

Zatorsky pensou em parar, mas o ser olhou-o altivo e o médico, como se golpeado por esporas, jogou-se nas ondas. Por uns instantes, pensou estar se afogando num precipício sem fundo.

A água glacial cobriu-o impedindo-lhe a respiração; os ouvidos zumbiam, a cabeça girava, sua visão escureceu. Mas, subitamente, veio uma onda, levantou-o e trouxe-o para a superfície. Zatorsky olhou surpreso em volta. A água havia desaparecido; o uivo e o assobio do vento cessaram: em torno reinava um majestoso silêncio.

A paisagem alegre anuviou-se e mudou de aspecto. A terra verdejante avolumou-se e abriu embaixo de si um túmulo, iluminado por uma vaga meia-luz. No centro do túmulo, havia um sarcófago aberto, acima do qual cintilava uma estrela ofuscante; ao lado do túmulo de pedra estava o ser que fora o seu orientador. Ele segurava nas mãos um cálice negro.

— O que significa tudo isso? - perguntou-se mentalmente Zatorsky

— Isto significa o seguinte: eis o enigma que você deverá decifrar - respondeu o ser erguendo o cálice.

No mesmo instante tudo escureceu. Zatorskyi teve a sensação de estar voando dentro de um precipício, e perdeu os sentidos

Ao abrir os olhos, ele viu Sarah e Mestre Leonardo inclinados sobre ele.

Zatorsky passou a mão pela testa e tentou juntar as idéias. Parecia-lhe ter acordado de um pesadelo, cheio de visões medonhas.

Sobre seu peito agora pendia um medalhão com uma estrela vermelha de cinco pontas. Observou e viu o mesmo medalhão no peito de Sarah e Mestre Leonardo, no peito de Juliana Marotti pousava um triangulo , logo imaginou que diferenças tinha entre ela e ele, pensamento capturado por Sarah e respondido em sequencia: Juliana Marotti falhou, não haverá segunda chance. Sarah e o Mestre se retiraram para o salão oval, Zatorsky retirou para o quarto para o necessário descanso para o casamento. Tomada por uma ira oriunda da citação do fracasso, ela desce ao calabouço e fustiga o prisoneiro com o chicote, pela primeira vez desde que está na prisão ele fuzila: tudo teria corrido bem se tu não fosse uma vadia, o sangue me ferveu quando eu te vi com aquele médico idiota, entre salvar minha vida e tua honra, escolhi .

- O que ? Ela parecia confusa.

- Lógico, tu achas que eu não sabia de tuas aventuras sexuais com o médico? Posso ser velho, mas não sou burro, muitas vezes fingi estar dormindo e fui espionar-los, fui traído, mas sempre soube de tudo, pode bater o quando tu quiser, porque eu sempre vou te falar com minha boca , com meus olhos ou com o que puder: Vadia!!!!

- Extremamente abalada com as observações, mas exibindo um autocontrole muito grande, ela o leva para a cadeira do dragão e o coloca nas engrenagens, com uma algema em volta do pescoço, faz com que a corrente da algema afastasse o suficiente para começar um processo de enforcamento.

- Tá doendo? Lembra que a vadia vai te matar, mas não de vez, vou te matar aos poucos, vou te cortar aos pouquinhos, vou machucar, vou ferir, vou torturar, vou dançar em cima do teu corpo, vou fazer tu implorar pela morte, porque afinal não é assim que uma vadia se comporta?

Durante uma hora, fazia sessões de enforcamento de cinco em cinco minutos, após saiu totalmente renovada nas suas energias.

Era o dia do casamento de Fabiana, sentimentos antagônicos se cruzavam no castelo de Gorki.

Enquanto Eric ficava cada mais preocupado com os prazo do pagamento da divida e também com o baixo preço conseguido pela última colheita, além de preocupações com clima e a colheita atual, sua esposa Cristina andava muito bem disposta, como nunca nos últimos noventa dias.

Paulo e Juliana Fornazier Surotsev preocupados com a cerimônia em si, apenas pensavam no futuro de sua primogênita, mas uma correspondência chegada de S. Petrogrado iluminam seus dias: Paulo estava sendo convocado a retomar os seus bens no prazo de três meses, bem como seu antigo empreso no Ministério. Paulo, rapidamente pensou na sua família, mas também nas ameaças de Juliana Marotti se não conseguisse a estatua de Kali, agora teria como se proteger e a sua família na sua terra natal, comunicaria imediatamente a família LaFonte e também marcaria o seu retorno para uma semana depois do casamento.

Fabiana não agüentava mais esperar a data e compartilhava aquele momento especial com Carol, que não parecia muito animada.

- Animo Carol, quem sabe se o teu príncipe aparece ou reaparece?

- Não quero mais pensar nisto agora, outra hora conversamos a respeito.

Capela de Montganac, muitos convidados elegantemente vestidos aguardavam a chegada da noiva. O Bispo Jacques Noir devidamente paramentado para o evento observa a chegada de Fabiana, levada por seu pai até o altar a entrega para Zatorsky.

O Bispo conclui os sacramentos em latim e a partir daquele momento os declara marido e mulher.

Uma grande festa os aguardava no castelo de Montganac preparada por Sarah, salão lotado de belos casais rodopiando embalados pelas valsas vienenses.

Pronto! A partir daquele momento Fabiana estava nas mãos de Zatorsky, Sarah, Juliana Marotti e Mestre Leonardo.

Alla jacta est

PHFIC - Capítulo V II – Dúvidas


No pensamento, o que permanece é o caminho. E os caminhos do pensamento guardam consigo o mistério de podermos caminhá-los para frente e para trás, trazem até o mistério de o caminho para trás no levar para frente.
- Heidegger.

Era uma típica noite de verão quando o mensageiro trouxe uma carta de Louis LaFonte, avisando que, por motivos de trabalho, não poderia comparecer a Gorki. Apenas relatou algumas informações que recebeu do Embaixador em São Petrogrado: O Czar ao retornar de suas férias, rapidamente sufocou a rebelião comandada pelo Barão Kozen, exilando, prendendo e deportando para Sibéria os seus partidários, inexplicavelmente o barão e sua esposa não foram vistos e muito menos presos, simplesmente sumiram.

Uma semana após outro mensageiro trouxe uma noticia para Eric que logo após sua leitura, acabou com suas boas noticias da colheita daquele ano. Trazia a noticia de uma vultosa dívida contraída no jogo pelo seu tio Louis e que tinha sido dado o Castelo de Gorki como garantia da dívida, agora: era perder o dinheiro investido no imóvel e levar-lo a ruína e voltar para Bordelle, ou conseguir o dinheiro em uma semana.

Paulo Surotsev em muitas das recepções oferecidas em Montgnac acabou por se encantar com a beleza e sensualidade da Condessa Chant d´Orsay, que insinuante enfeitiçava o imaginário do nobre russo, ele imaginava a bela morena em seus braços e, em alvos lençóis, deixar sua luxúria comandar as ações.

Com esta mudança de atitude, sua esposa Juliana Fornazier começou a desconfiar de algumas palavras desconexas faladas durante o sono pelo marido, ela só entendia algumas expressões e começou a controlar mais os passos dele, nunca tinha pensado em ter que vigiar seu consorte, mas era importante estar vigilante, já que Paulo estava negligenciando seus deveres conjugais.

Será que tinha alguma outra mulher no pensamento de Paulo? Ela sempre pensou que ela e suas duas filhas eram os únicos nomes que ele pensava, mas de repente um D’Orsay escapou durante o sono. Inquirido ele negou conhecer nenhuma mulher com este e negou qualquer envolvimento com outra pessoa.

O bispo Jacques Noir recebe naquela semana, uma misteriosa pessoa com papeis vindos de Paris e com a tarja de confidencial.

Eric desesperado com a falta de condições de levantar os recursos necessários para o pagamento das dividas de seu tio, acaba desabafando com Paulo Surotsev, a conversa carregada de tensão por Eric não parecia chegar a nenhuma conclusão, estavam tão concentrados em suas próprias dificuldades que não notaram a chegada de Zatorsky em Gorky. Notando as faces carregadas ele logo tentam inteirar-se do tema, ambos tentaram desviar do assunto, mas a gravidade do assunto acabou por colocar-los na necessidade de compartilhar este assunto com um amigo que tanto prezavam, afinal será que ele também não teria solução para a divida de tio Louis?

Zatorsky ouviu atentamente toda a situação e ofereceu seus préstimos para conseguir auxilio, dispôs a procurar uma solução e após um breve colóquio com Fabiana retirou-se do castelo, após alguns minutos entrou em Montgnac e reservadamente falou com Sarah.

A bela mulher se divertia contando como um amigo seu tinha enganado e dilapidado toda a fortuna de Louis LaFonte, cada palavra era dito com um sarcasmo e como se estivesse presente para narrar cada ato que levou o nobre a ruína.

Agora várias promissórias estavam na suas mãos e o destino de Gorki passava por troca muito justa: as dividas por Fabiana ou seja o casamento da Fabiana com Zatorsky era iminente, enquanto isto a Condessa Chant d’Orsay ou Juliana Marotti continuaria a incentivar a discórdia no casamento de Paulo e Juliana Fornazier Surotsev.

Todas as informações e os sucessos advindos das noticias a deixaram muito excitada e carregando-o para a cripta, encontra com Juliana Marotti e pela primeira vez os envolve em sua trama de volúpia , ali o ménage a trois foi feito com grande intensidade.

Após o ato, Juliana Marotti e Zatorsky voltam a Komedhor, ela vai direto para a masmorra e mais uma vez tortura o seu prisioneiro, desta vez com ferro em brasa nos genitais e um afogamento em uma tina d’ água, após deixando-lhe desfalecido em sua cela, ela sobe e tranca-se na torre norte.

O médico tenta manter a sobriedade e narra todos os acontecimentos para o mestre Leonardo, que ouve com muita atenção, porém em um determinado momento ouve berros no corredor:

A testa de Adriano cobriu-se de suor gelado; ele ouvia sua respiração pesada e nos ladrilhos iluminados pelo luar viu a sombra da fera. O tigre deve ter percebido o serviçal; cravando nele seus olhos esverdeados e fosforecentes e fustigando as ancas com poderoso rabo, a fera se agachou, prestes a dar o bote, entreabrindo a boca, como que já degustando a carne humana da qual se serviria. O empregado ficou paralisado, já sentindo em seu pescoço as presas terríveis da fera; mas, por trás dela, assomou-se Mestre Leonardo, empunhando alto a destra. O símbolo desenhado no ar irradiava luzes azuladas que dardejavam milhares de faíscas pelo ar. O terrífico espectro sacudiu-se e começou a recuar rastejando em direção à porta da sala. O mestre, entrementes, avançou ameaçando com a mão, recitando em voz firme as fórmulas em língua estranha; um pouco depois, ambos desapareceram no interior da casa".

Zatorsky, cambaleando e tateando as paredes foi aos poucos conseguindo assimilar a cena. Não passara nem uma hora do acontecido, encontramos ele sentada em uma cadeira tentando ler um papiro com expressões e invocações para entender melhor o processo que Mestre Leonardo utilizou para repelir o tigre. Agora já sabia que tinha instrumentos mágicos para poder andar em Komedhor sem o risco de ter que encarar a fera.

Eric apreensivo com o desfecho da negociação que o doutor diria que ia fazer, fica trancado em sua biblioteca. Paulo tinha saído para caçar com o Barão de Montgnac, mas ao chegar perto de Molay encontra-se com a bela Condessa Chant d’Orsay, ela dá um sorriso sarcástico e o Barão segue sozinho sua caçada. Juliana Marotti o induz a entrar dentro da floresta, ele é dominado e retirado do cavalo por dois homens, amarrado em uma árvore e ela com um chicote na mão o ameaça:

- Imbecil, tu pensou que, algum dia eu pudesse te pertencer? Não Paulo Surotsev, tu não me interessa, mas eu quero algo maior, eu quero a estátua de Kali que pertence a séculos aos Tuzov. Se queres que tua esposa sobreviva, acho bom que você consiga o quanto antes, senão eu vou matar teus familiares um a um, começando pela tua “rica” esposa. Ela retira sua luva e lhe dá um tapa e cuspe no seu rosto: Eu quero que você em silêncio, se alguém souber ou desconfiar, tua esposa será uma mulher morta. Após o recolocar no cavalo ele sai da floresta apavorado e neste instante reencontra com o Barão:

- Veja que belos faisões Paulo! Estamos com sorte hoje.

Paulo não entendeu nada, mas o recado de Juliana Marotti foi bem claro: silêncio ou a vida da sua família estava em perigo.

Paulo ficou em completa mudez até chegar a Montgnac, pela expressão no seu rosto, Sarah verificou que Juliana Marotti cumpriu bem sua missão, o barão mandou convites para seus amigos de Gorki saborearem os faisões caçados por ele e Paulo.

Carol andava triste com o sumiço de Cleverson e também por falta de noticias a seu respeito, sonhos atormentavam suas noites e pensava estar enlouquecendo como sua mãe.

Fabiane andava radiante, todas as suas expectativas estavam sendo realizadas e Zatorsky prometera que pediria a sua mão em casamento para seu pai, muito em breve.

Eric estava muito nervoso por uma resposta do médico sobre como levantar o dinheiro para saldar a divida e não perder Gorki.

Zatorsky vai a cidade conversar com uma importante pessoa e com ela consegue a vultosa quantia para saldar a divida de Eric e recebe em suas mãos a tiara de Vairami.

Cristina mais uma vez atormentada pelos seus pesadelos, ouve uma voz gutural dando um recado: acorde quem nunca dormiu.

Mestre Leonardo reúne Sarah, Juliana Marotti e Zatorsky em Komedhor. Perante uma mesa de mármore com vários papiros em volta, faz interessantes revelações: com a tiara de Vairami e a estátua de Kali ele poderia voltar a reinar em todo aquele vale sobre a supervisão completa de seu “Mestre” maior. Sombras e trevas iriam novamente espalhar dor e sofrimento por toda a aquela região exatamente como fizeram há 600 anos, como o único que poderia o impedir estava morto e com isto seu poder e do medalhão estariam fora do caminho para conquista do poder total.

Falando em idioma desconhecido e em palavras inteligíveis. Sarah lembra que algumas vezes ouviu aquelas palavras quando tinham estudado sobre runestone de Hammar I e sabia que Mestre Leonardo estava começando mais um ritual para sacrifício e só desta vez ela não tinha participado do processo. Naquele momento começa o evento :

Veit eg að eg hékk,

vindgameiði á

nætur allar níu

geiri undaður

og gefinn Óðni

sjálfur sjálfum mér

á þeim meiði

er manngi veit

hvers af rótum renn

E se virão em frente ao velho carvalho de Molay com o corpo de Adriano pendulando, Mestre Leonardo fica no meio em um altar esculpido na rocha e junto a ele Zatorsky e Jacques com suas espadas cruzadas no alto completam o ritual, Juliana Marotti ainda pouco acostumada com aqueles rituais sua frio, mas Sarah observa com grande excitação a cena, a morte lhe fascinava e via aquilo com uma certeza que ela voltaria a ser a grande imperatriz do vale, exatamente como há 600 anos, queria que seu reino de luxúria voltasse a dominar e ter todos os homens aos seus pés.Coube a Juliana Marotti preparar o corpo para a entrega em definitivo para o Mestre dos Mestres, Sarah apenas a orientava para nada saísse errado. Naquele exato momento um raio caiu sobre o galho do carvalho e retirou dele qualquer vestígio do sacrifício, nele apenas ficou marcado hékk.

Zatorsky seguiu para Gorki levando o dinheiro e o pedido da mão de Fabiana em casamento, seria o começo da bem urdida trama, sairia com a família Surotsev e LaFonte para o banquete do faisão com problema resolvido e com todas famílias enredadas e arruinadas.

Eric ficou contente com o dinheiro porém as condições assustaram: um mês de prazo e compromisso de metade de sua colheita futura, mas como não podia impor nada aceitou a proposta. Paulo e Juliana Fornazier satisfeitos com o pedido de casamento de Zatorsky a Fabiana, mas ele se manteve calado pois não sabia nem o que era a estátua de Kali e nem onde ela se encontrava.

Sarah habilmente colocou Paulo em frente da Condessa Chant d’Orsay na mesa e quando seus olhares se cruzavam ele gelava, sua esposa apenas notava seu pavor e o inquiria, porém nada saia de seus lábios, apenas abria a boca para degustar o faisão, a condessa Cristina olhava para Sarah e via seu sorriso diabólico, mas ainda não sabia porque aquilo lhe incomodava tanto.

Carol ainda tentava saber noticias do sobrinho do barão, mas tudo em vão, ninguém tinha noticia dele há muito tempo, e pelo próprio espírito aventureiro dele não seria estranho se ele aparecesse ali casado com uma mulher alemã ou austríaca, o barão achava que sabia do temperamento do sobrinho, mas nada sabia sobre seu paradeiro.

Muitas dúvidas e poucas certezas saíram daquele jantar, a única vitória quem sentia era Sarah, a imperatriz das sombras.